quinta-feira, 15 de março de 2012

O corte no dedo

Cortei-me no dedo da forma mais estúpida. Estava a cortar curgetes no ralador e embora já estivesse quase no fim e só tivesse um bocado pequeno, pensei "ah já agora faço tudo" sem usar a peça branca para segurar e que evita cortes. Resultado: cortei uma postinha do polegar direito. Mesmo um bifinho. Sangrou imenso, tive de enrolar o dedo num pano de cozinha.

E liguei ao meu pai, que talvez fosse melhor ir ver disto. Ele disse que vinha e que a minha mãe que já estava para se deitar ficava. Veio fomos ao posto de enfermagem mas já estava fechado pois eram 9 e tal da noite. Pensei então ir ao hospital privado, pois tenho ADSE e o público nem pensar pois a última coisa que me apetecia era lá ficar horas. Ligámos a minha mãe do meu e do telemóvel dele e ela não atendeu. Então antes de irmos ao hospital, passamos por casa para ver dela. Eu fiquei no carro o meu pai subiu e quando voltou disse que ela não estava a falar, estava na cama acordada com má cara mas não queria falar. Eu subi então.

"Mãe então como estás? Já viste a asneria que eu fiz, cortei-me e tirei um bocado do dedo?" Nada. "Sangrou imenso e fomos ao posto de enfermagem mas estava fechado. Vamos agora ao hospital, mas quisemos ver como estavas." Nada. "Mãe o que se passa? Não vês que eu precisei de ajuda e o pai foi ajudar-me?" Nada. Eu que já estava nervosa não me aguentei e comecei a chorar. "Mãe fala comigo! Mãe o que foi?" Nada. Só disse depois que o meu pai é que era o culpado. "Mas culpado de quê? Não vês que eu precisava de ajuda?" Nada. E eu a chorar descontrolada. Só passado um bocado a minha mãe me diz quase a chorar "Não chores." Apenas isto.

Tenho a dizer que este momento foi dos mais duros. Apercebei-me que tinha a minha mãe à minha frente mas não tinha. Ela estava num mundo dela a que eu não estava a conseguir chegar. Estaria chateada com o meu pai por ter saído? Sentir-se-ia abandonada por ele me ter ido ajudar? Não sei, mas seja o que for não era a minha mãe naquele momento. A minha mãe como era, como sempre foi, teria feito perguntas sobre o corte, se estava bem e ficaria preocupada. Não a culpo claro sei que é a doença, mas é uma sensação de vulnerabilidade, de me sentir desprotegida pois toda a vida a minha mãe se importou muito com tudo que me acontece. Fiquei arrasada nessa noite.

Lá fomos ao hospital e eu a chorar o tempo todo e o meu pai a dizer para ter calma, que tínhamos de ser fortes, etc

No dia a seguir, ele disse-me que ela tinha acordado muito bem disposta como se nada fosse, nem aquele incidente se tivesse passado. Esqueceu. E ele cometeu o erro de lhe falar no assunto "Então ontem que se passava contigo, que a tua filha saiu daqui a chorar por não falares com ela? Ela fez um corte muito grande no dedo e fui levá-la ao hospital." Resultado: a minha mãe começou a chorar e ficou triste. Claro que o meu pai se apercebeu logo que não devia ter dito nada.

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